Cientistas estão ensinando o corpo a aceitar os órgãos transplantados

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Antes da descoberta de drogas contra a rejeição, os transplantes de órgãos eram impossíveis. (Foto: Reprodução)

Em 1953, Peter Medawar e seus colegas na Grã-Bretanha realizaram um experimento com um resultado tão impressionante que ele foi um dos ganhadores do Prêmio Nobel por sua realização. Ele mostrou que era possível “treinar” o sistema imunológico dos camundongos para que eles não rejeitassem o tecido transplantado de outros camundongos. Agora os cientistas querem fazer o mesmo com humanos.

Em fevereiro de 2017, Michael Schaffer, 60 anos, que mora na Pensilvânia, teve um sangramento pelo nariz que ele não conseguia estancar. Procurou um pronto-socorro, e depois um hospital, onde um médico finalmente conseguiu cauterizar um pequeno corte na narina.

O médico explicou então a Schaffer que ele precisava de um transplante de fígado. O sangramento pelo nariz era um sintoma de que o seu fígado não estava produzindo as proteínas necessárias para que o sangue coagulasse.

Os médicos pediram a Schaffer que concordasse em tornar-se o primeiro paciente de uma experiência que tentaria algo com que os cirurgiões especialistas em transplantes vêm sonhando há mais de 65 anos. Se funcionasse, ele receberia a doação de um fígado, sem a necessidade de tomar drogas potentes para impedir que o seu sistema imunológico o rejeitasse.

Antes da descoberta de drogas contra a rejeição, os transplantes de órgãos eram impossíveis. A única maneira de o organismo aceitar um órgão doado era suprimir a resposta imunológica. Mas as drogas eram perigosas, e aumentavam o risco de infecção, câncer, elevados níveis de colesterol, e acelerava o aparecimento de uma cardiopatia, diabetes e falência dos rins.

No prazo de cinco anos depois de um transplante de fígado, 25% dos pacientes em média morriam. No prazo de dez anos, de 35 a 40%.

Os pacientes em geral sabem dos riscos das drogas, mas a alternativa é pior: a morte dos que precisam de fígado, coração ou pulmões; ou, no caso dos pacientes com problemas nos rins, uma vida em que a pessoa precisa de um aparelho de diálise, com uma expectativa de vida e uma qualidade de vida ainda pior do que um transplante.

O estudo de Peter Medawar gerou uma busca científica para encontrar a maneira de treinar o sistema imunológico de adultos necessitados de novos órgãos. Até agora, a maior parte da pesquisa científica tem se concentrado em pacientes que precisam de transplantes de fígado e de rins.

Estes órgãos podem ser transplantados de doadores vivos, a fim de que as células do doador estejam disponíveis para serem usadas na tentativa de treinar o sistema imunológico do paciente que receberá o transplante. Quanto mais os pesquisadores aprendiam sobre a sinfonia das células brancas do sangue que controlam as reações a infecções e cânceres – e aos órgãos transplantados – mais começaram a ver alguma esperança de modificar o sistema imunológico do organismo.

Muitos tipos de células brancas trabalham juntos para criar e controlar as respostas imunológicas. Vários pesquisadores optaram por concentrar-se nas células chamadas linfócitos reguladores T. Trata-se de linfócitos raros que ajudam o organismo a identificar suas próprias células como não externas. Se estas células faltam ou estiverem comprometidas, as pessoas poderão contrair doenças em que o sistema imunológico do organismo ataca seus próprios tecidos e órgãos.

A ideia é isolar as células reguladoras T de um paciente prestes a receber um transplante de rins ou de fígado. Então os cientistas tentam cultivá-las no laboratório juntamente com células do doador. Dali, as células T são transferidas de volta para o paciente. O processo, esperam os cientistas, ensinará o sistema imunológico a aceitar o órgão doado como parte do organismo do paciente.

Outro plano é modificar as células de um sistema imunológico diferente, chamadas células dendríticas reguladoras. Como as células T reguladoras, elas são raras e permitem ao restante do sistema imunológico distinguir o que é seu do que não é. Uma vantagem das células dendríticas reguladoras é que os pesquisadores não precisam isolá-las e cultivá-las em quantidades suficientes. Ao contrário, os cientistas podem incentivar um tipo de célula mais abundante – linfócitos imaturos – a se transformarem em células dendríticas em pratos de Petri.

As células T reguladoras também precisam permanecer na corrente sanguínea a fim de controlar a reação imunológica, enquanto as células dendríticas não precisam permanecer por muito tempo – elas controlam o sistema imunológico durante uma breve jornada através da circulação.

A operação foi realizada em setembro de 2017. Depois disso, Schaffer teve de tomar 40 comprimidos diários para evitar infecções e reprimir o sistema imunológico enquanto o seu organismo aprendia a aceitar o novo órgão. Mas agora ele toma apenas um. E os médicos esperam que possa deixar de tomar remédio.

O Sul

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