Lideranças comentam polêmica sobre preço do diesel

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Foto: Adriano Dal Chiavon | Diário
João Carlos Dal’Aqua, presidente do Sulpetro, analisa as decisões do governo federal sobre o preço do produto e os impactos que deverão ser sentidos nos postos de combustíveis gaúchos. Jacir Carvalho, líder do movimento dos caminhoneiros na região, descarta oferta de linha de crédito e quer mais fiscalização nos preços praticados pela categoria

A novela com o preço do diesel praticado no Brasil segue rendendo novos capítulos. Depois do governo federal vetar um reajuste de 5,74% junto à Petrobras na semana passada, o presidente Jair Bolsonaro também anunciou uma linha de crédito estimada em R$ 500 milhões aos caminhoneiros. As decisões foram tomadas sob forte pressão da “comissão dos caminhoneiros”, movimento sediado em Brasília e composto por deputados e lideranças da categoria. Na última semana, o grupo se reuniu com Bolsonaro, momento em que se especulou uma nova paralisação nacional dos caminhoneiros semelhante à realizada de maio a junho de 2018.

Nesta quarta-feira (17), no entanto, às 18h50min, o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, anunciou um aumento de R$ 0,10 por litro de diesel nas refinarias. Com isso, o valor do diesel subiu de R$ 2,14 para R$ 2,24, em média, nos 35 pontos de distribuição no país. Sobre a interferência de Bolsonaro no preço do diesel, Castello Branco afirmou que o presidente apenas o alertou sobre os riscos que representava uma greve dos caminhoneiros. “Fiz uma reunião com os diretores para suspender o reajuste de preços para uma reavaliação. Todos nós sofremos com a greve dos caminhoneiros. Fui favorável a sustar o reajuste dos preços”, disse o chefe da estatal.

Como ficam os preços no RS

No Rio Grande do Sul, conforme explica João Carlos Dal’Aqua, presidente do Sulpetro, sindicato que representa os postos de combustíveis no estado, o aumento do diesel anunciado na quarta-feira pode estar chegando à bomba nos próximos dias. Tudo dependerá da política de preços adotada pelos postos de combustíveis com base nos valores que são repassados pelas suas respectivas distribuidoras. “O posto de combustível não compra diretamente da refinaria e sim da distribuidora. Então, são as distribuidoras que repassam aos postos seus estoques com base nos preços que eles entendem como adequados. Os postos, por sua vez, calculam seus custos e aí aplicam seu preço final”, diz.

Segundo ele, no RS, problemas de abastecimento devem elevar ainda mais o preço do diesel nos próximos dias. “Há algumas semanas, a grande maioria dos postos de combustíveis do estado vem se mantendo com estoques muito baixos. Tudo porque a Petrobras teve um problema na entrega do diesel às distribuidoras, o que causou uma dificuldade no fornecimento aos clientes. Sem dúvida, isso também trará um impacto no preço final no estado. É inevitável”, adverte Dal’Aqua.

Ao classificar como “desastrada” a interferência de Bolsonaro no preço do produto na semana que passou, o presidente do Sulpetro também cita que os impostos atribuídos aos combustíveis no país é que deveriam estar no centro das discussões. “Bolsonaro vetou na semana passada e liberou nesta semana, apesar de termos informações de que o governo não iria interferir na política de preços da Petrobras. Claro que tem toda a sombra oriunda dos caminhoneiros, mas essa movimentação que o governo fez na semana passada foi desastrada e ocasionou uma oscilação de mercado muito grande. Essa semana ele já sinalizou que não irá se misturar novamente nesses assuntos e vai deixar para a Petrobras definir seus preços”, observa Dal’Aqua, que acrescenta:

– A política de preços dos combustíveis é muito complexa no Brasil. No RS, por exemplo, a gasolina tem um ICMS diferenciado e que eleva o preço a um patamar superior ao praticado em estados vizinhos, como Paraná e Santa Catarina. Nesse produto, quase 50% do custo final advém da carga tributária, que são os impostos estaduais e federais. Então, a dificuldade é grande porque temos a variação que é imposta pelo preço internacional do petróleo e do câmbio, temos o custo da refinaria, o custo das distribuidoras, o custo praticado pelos postos e toda essa carga de tributos. A margem bruta final dos postos de combustíveis está em torno de 10%. Dessa margem, saem todas as despesas do negócio. Entre distribuição e revenda (postos e distribuidoras), se fala em um lucro bruto de aproximadamente 15%. Todo o valor restante vai ficar em custo de produção, custo de logística e custo de carga tributária – explica.

João Carlos Dal’Aqua, presidente do Sulpetro (Foto: Divulgação | Sulpetro)

Monopólio da Petrobras prejudica setor

Nesse contexto, Dal’Aqua afirma que as oscilações no mercado internacional causadas pelo preço pago ao barril de petróleo não representariam um problema para o Brasil não fosse a questão tributária. “Todos os países que trabalham nesse sistema estão com preços oscilando ora para cima, ora para baixo. Essa variação não seria um problema no país se não tivéssemos um componente tão grande de carga tributária em cima desses produtos. Então, internamente, a gente tem que pensar numa solução que possa amenizar essas variações, mas nunca para maquiar valor de produto, porque isso arrebentaria a Petrobras. O importante seria aumentar a competitividade no refino. Nós temos praticamente um monopólio da Petrobras e isso não faz bem para o mercado. O governo já sinalizou que vai privatizar algumas refinarias e isso é importante, apesar de ser uma demanda a longo prazo. Depois de aumentarmos a competitividade no refino, temos que aumentar a competitividade na distribuição. O Brasil tem 40 mil postos, é um setor extremamente pulverizado. Agora, a questão da distribuição e do refino precisaria ter uma competitividade maior. Essa é a nossa visão”, conclui.

Caminhoneiros: categoria rejeita linha de crédito e reivindica maior fiscalização na tabela de frete

Desde que o governo federal vetou o aumento do diesel e anunciou uma linha de crédito para conter uma nova paralisação nacional dos caminhoneiros, especulações dão conta de que a categoria segue insatisfeita e já articula um novo movimento. Para explicar o cenário que se desenha a partir de agora, o Diário conversou com o líder do movimento na região, o caminhoneiro Jacir Carvalho. Contrariado com as propostas de Jair Bolsonaro, ele cita que o governo federal ainda não apresentou um projeto que contemple as reais reivindicações do setor.

– O governo está comandando o país há pouco mais 100 dias, então, no nosso entendimento, sabemos que é pouco tempo para criticá-lo, até porque as duas propostas que ele apresentou demonstram que há um interesse pela nossa causa e o Bolsonaro está aberto a dialogar conosco. Entretanto, o que ele está propondo não serve para nós porque não resolve o nosso problema. Não adianta oferecer crédito para comprar no mercadinho da esquina achando que isso vai resolver a crise que a categoria enfrenta. Nós vamos pegar esse dinheiro, gastar, e depois não teremos como pagar por isso. O que a gente precisa é melhorar o nosso ganho e crédito nenhum resolve esse problema. Queremos que o governo faça com que a Política Nacional de Pisos Mínimos, conhecida como tabela do frete, seja cumprida – declara o caminhoneiro.

Segundo Carvalho, a categoria mantém em Brasília “a comissão dos caminhoneiros”. É ela que está dialogando com Bolsonaro a repeito das demandas do setor e, na semana passada, pressionou o governo para frear o aumento no diesel. “A nossa comissão está tentando negociar diariamente com o governo. O próprio aumento do diesel, anunciado na semana passada, não se concretizou devido à pressão que fizemos junto a Bolsonaro, que vetou esse aumento para evitar uma nova paralisação. Se aquele aumento tivesse ocorrido, estaríamos todos parados nesta semana porque não tem como trabalhar nesse cenário. Estamos longe de conseguir atingir nosso objetivo, mesmo que esse governo esteja tentando fazer algo pela categoria”, enfatiza.

Tabela de preços

De acordo com o caminhoneiro, além dos frequentes aumentos no preço do combustível, o grande impasse vem sendo a falta de fiscalização dos preços praticados pelos profissionais autônomos. O procedimento deveria ser conduzido pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). “Esta fiscalização iria legitimar a tabela do frete e fazer com que os preços praticados fossem uniformes para toda a categoria autônoma. O problema é que a ANTT não tem efetivo para fazer essa fiscalização. Então, o que nós estamos debatendo e solicitando é a necessidade de realizar essa fiscalização de maneira eletrônica e automática. Assim, quando o caminhoneiro for fazer o manifesto de carga e esta carga não estiver no piso mínimo, o sistema não geraria o Código Identificador da Operação de Transportes (CIOT) – sugere Carvalho.

Jacir Carvalho, líder do movimento dos caminhoneiros na região (Arquivo | Diário)

Nova greve

Sobre uma possível paralisação dos caminhoneiros nas próximas semanas, Carvalho relata que a categoria não está com força para fazer uma greve como a realizada em 2018. “Nesse momento, estamos buscando tratar do assunto com diálogo e o governo está aberto a essa negociação. Antigamente, com governos anteriores, não tínhamos isso. Eles faziam o que queriam e a gente tinha que acatar. Foi isso que motivou a paralisação em 2018. Então, por conta dessa abertura de agora, penso que ainda não é o momento para uma paralisação. Uma greve nesse momento não seria boa nem para o governo, nem para os caminhoneiros e nem para o povo brasileiro”, finaliza.

Em 2018, a greve dos caminhoneiros ocorreu de 21 a 30 de maio e precisou da intervenção do Exército Brasileiro e da Polícia Rodoviária Federal para desbloquear as rodovias. No período, estima-se que as perdas econômicas tenham alcançado R$ 30 bilhões.

Por Anderson Faveiro/Fonte: Diário

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